O bom professor
é aquele que atua positivamente no processo de desenvolvimento das
potencialidades humanas, independente da classe social do educando. Essa foi a
conclusão que tivemos após a entrevista que serviu de roteiro para nosso
trabalho sobre o que é ser um bom professor com a professora R.H., da Rede
Municipal de Educação Infantil de Bauru/SP.
Inspirada por
Vygotsky, Rudolf Steiner, Freinet, dentre outros teóricos, está sempre
pesquisando e contribuindo dentro da escola que atua: “O bom professor é
aquele que não para nunca, está sempre estudando e pesquisando, se desenvolve
junto com seus educandos”. Por exemplo, eu durmo cedo, para no dia seguinte
estar inteira para trabalhar junto com meus alunos. A criança copia tudo o que
o adulto faz, somos exemplos a serem seguidos para eles. Isso é muito
sério", fala da R.H. ontem na apresentação do vídeo feito em sua homenagem
na Unesp.
Michele Távora
Julio, estudante de Pedagogia e uma das colaboradoras do Enxame de Ideias,
trabalhou por 2 anos como auxiliar da professora R.H. e vivenciou a
possibilidade da aplicação de vários conceitos e teorias na vida prática
do professor na escola.
"Me lembro
no período em que trabalhei na Prefeitura, como auxiliar da professora R.H.,
que via a realização de todas as teorias que estudo e me debruço na
Universidade sendo vivenciadas pelos alunos através do trabalho da professora
R.H. Poder observar e auxiliar a professora no desenvolvimento desses alunos
dia após dia, durante 2 anos foi maravilhoso. Durante este período em que a
auxiliei, meu sobrinho era aluno dela e acompanhei todo o processo mais
efetivamente através da vida dele. Ele cursou o Maternal II e Jardim I com a
professora R.H., hoje está com 5 anos e fazendo o Jardim II com outra
professora,mas sente muito a falta da R.H. e faz coisas em casa que são frutos
do trabalho dela. Um exemplo disso é que meu sobrinho tem uma inteligência para
questionar o que ainda não sabe e é capaz de pensar em estratégias para
conseguir o que acha certo pra ele, cria pintinhos e galinhas no sítio da minha
mãe, por que quer ter essa vivência, sempre se refere à professora R.H. e quer
levar suas experiências para ela. Ela plantou isso nele e hoje estamos vendo as
sementes crescerem. Mas vocês pensam que só ele é assim? Todas essas crianças
que foram alunas da R.H. durante estes 2 anos se destacam na escola, são
crianças ativas e que já possuem um senso crítico,ainda que sejam crianças de 5
anos. Outro exemplo disso é que, num dia em que a servente da escola havia
faltado e o banheiro estava sujo, as crianças da professora R.H. sem que
ninguém as instigassem, se organizaram e foram até à sala da diretora pedir à
mesma que providenciasse a limpeza do banheiro. Incrível, não é? Eu não
acreditava mais na Educação, e comecei a sentir o renascer desse amor dentro de
mim novamente, voltei a acreditar na Educação para as crianças. Através do
trabalho da R.H. vi na prática o Livro da Vida de Freinet nas mãos das
crianças, vi toda a brincadeira que Vygotsky tanto reivindica nos seus
tratados, para o desenvolvimento da linguagem da fala e da escrita na criança,
e vi as crianças sendo encaminhadas para um caminho de alimentação natural e
mais saudável, o respeito e cuidado para com a natureza,da maravilhosa
Pedagogia Waldorf,de Rudolf Steiner. Além de tudo isso, ela é extremamente
preocupada com cada aluno seu, se algo não vai bem com algum deles, ela
investiga e busca até mesmo soluções fora do horário de trabalho e parcerias
com outras instituições, caso necessário. Por isto,estou aqui novamente,
ocupando uma cadeira numa sala da Unesp, para ser uma professora de Educação
Infantil e trabalhar com o que realmente acredito. Agradecida para sempre,
professora R.H., por ter trazido luz e otimismo no meu caminhar.”
Abaixo a
entrevista com a professora!
1-Nome,idade,onde
e quando se formou.
R. H.V.S.
43 anos
1990-Magistério
Serviço
Social-ITE-1997
Pedagogia
-COC-2009
Espaço
Pedagógico-2005
2-Você tem
alguma lembrança de antigos professores que teve? Descreva uma lembrança boa e
uma ruim e o que essas memórias influenciaram na sua prática pedagógica.
Fiz pouco tempo
de Educação Infantil em uma EMEI, tenho poucas lembranças e não muito boas. Fui
estudar o Primeiro Grau na Escola SESI, que embora muito rigoroso da
disciplina, na época estávamos no período de ditadura, os professores eram
carinhosos e demonstravam interesses e preocupações com nós alunos. Considerava
a Escola minha segunda casa, amava a Escola, tanto que sofri muito quando fui
estudar no segundo grau em uma Escola Estadual. Fiz o magistério na escola
Estadual e passei a me encantar com o desenvolvimento infantil. Não pensava em
fazer pedagogia, desejava fazer psicologia, mas como não consegui fiz Serviço
Social, que foi muito bom, para conhecer a história, as contradições e tomar
gosto por querer trabalhar com a Educação e mudar o mundo.
Acabei
trabalhando em uma Instituição trabalhando com a Educação de crianças e
adolescentes no período contrário a Escola. Foi neste momento que conheci
outras possibilidades de desenvolvimento de habilidades, paralelo a isto tive a
minha filha e procurava uma escola para ela. Então fui conhecer a Escola Viver,
com uma Proposta Pedagógica mais ampla, contemplando várias áreas do
conhecimento.
Em Bauru não
tínhamos e não temos muitas propostas pedagógicas. Comecei a trabalhar na
Educação Municipal de Bauru, vi que a Escola dos sonhos poderia se concretizar,
pois neste momento as professoras e diretora faziam o curso no Espaço
Pedagógico, me incentivando a entrar, então fiz Espaço Pedagógico depois
Pedagogia, e isto foi fundamental para que eu acreditasse que um outro tipo de
escola fosse possível.
Depois fui
conhecer mais a fundo a Pedagogia Waldorf. Coloquei a minha filha nesta escola
que atualmente já faz o décimo ano.
Então sempre
achei que a escola deve ser uma lugar legal, de aprendizado, que faz ser feliz.
Então é com esta motivação que trabalho, e me sinto comprometida com isto.
Quando fazia Serviço Social, tive uma experiência em trabalho em uma Escola
Particular de Educação Infantil, e lá aprendi que não consigo trabalhar em
Escola Particular, pois é necessário fazer o que acredita e não o quê o
"mercado" quer.
3-Como você
qualifica sua formação?
Atualmente vejo
muitas habilidades não desenvolvidas, por isto precisamos de uma escola melhor.
4-Que análise
faz da formação continuada e dos cursos oferecidos pela Prefeitura?Vc
participa?
Já fiz muitos
cursos bons, com parcerias com várias áreas, Secretarias e Instituições. Mas
poucos realmente contribuíram para uma mudança de prática. O Curso do Espaço
Pedagógico foi o melhor que realizei, pois foi possível repensar a prática, com
tarefas de reflexão e embasamento para propor atividades para os alunos.
5-Atua em
movimentos sociais, partidos políticos,ONG's? Como isto influencia na sua
prática docente?
Participo de um
Projeto Social, com ações que envolvem a saúde, meio ambiente,
sustentabilidade, que estão longe do pensar da Educação. A Educação enquanto
escola, vejo que está muito devagar e sem um comprometimento real. Já no
projeto, consigo estudar, fazer cursos com questões mais humanas e de saúde de
todos.
6-Concepções de
educação: que ideias pedagógicas norteiam seu trabalho?
Tenho
referências da Pedagogia Waldorf por estudar um pouco e acompanhar os estudos
das minhas filhas. É a escola que mais acredito, pois vejo acontecer nela o que
estudamos com Vygotsky na Prefeitura, então vejo um estudo aprofundado, que vai
às origens, um conhecimento amplo, muitas vivências, estudos práticos e o
desenvolvimento de várias linguagens. Então é isto que acredito e vejo
possível. Mas, também trabalhos dentro da proposta da Prefeitura inclusive
estudaram e justificam um pouco da minha atuação com tal teoria, mas vejo que a
Educação o cuidado com o Ser Humano vai além, e que a estrutura da Prefeitura
não possibilidade em termos de vontade e de conhecimento e comprometimento real
com a Natureza, com o meio ambiente e com a vida.
7-Como é o
planejamento de suas aulas? Como vê a execução deste planejamento, consegue
alcançar seus objetivos?
O planejamento é
diário, embora fazemos o levantamento de objetivos e conteúdos para o bimestre
ou trimestre, e vamos passar a fazer mensal em breve. Nem todos os objetivos
são possíveis pelas condições da escola, do espaço, do tempo, de dividir a sala
com outros professores, com o investimento nos ideais pela própria escola e
Educação, limitação de acesso, pouco tempo disponível para providências de
materiais e contatos, etc.
8-Como lida e
soluciona com os problemas cotidianos encontrados para sua prática
pedagógica?Poderia citar um exemplo?
Sempre tenho que
contar com recurso próprio, material, contatos fora do horário de trabalho.
Ideias que nem todos valorizam, trazendo desânimo ou não conseguindo dar
prosseguimento. Mas procuro focar, não desistir e fazer até aonde é possível,
especialmente pelo financeiro.
9-Como trabalha
com a comunidade? Há uma interação dos pais na escola ou na vida escolar do
filho/aluno? Quais estratégias usa para aproximá-los mais da escola?
Convite para
reunião de pais, disponibilidade de horário para conversar, livro com um pouco
da história do que fazemos para levarem para casa, para conhecimento dos pais e
socialização com todo o grupo.
10-Quais são as
maiores dificuldades encontradas nas condições de trabalho e que acabam
influenciando na prática pedagógica?
Tempo restrito
com as crianças. Divisão da sala com outros colegas. Pouco tempo com o espaço
disponível para preparar o ambiente para o aluno. Falta de material
diversificado para o trabalho.
11-Segundo
Cunha: "Ritual escolar está basicamente organizado em cima da fala do
professor” (2006, p.135).
Como você
relaciona linguagem com teoria/prática no seu cotidiano como professora. Como
já mencionei estamos lendo toda a proposta pedagógica, todas as áreas do
conhecimento. A minha coordenadora pedagógica tem me desafiado a embasar a
minha prática na teoria. Então tenho feito relatórios colocando a prática e a
teoria. Inclusive fiz uma reunião na última quarta-feira falando com os pais a
teoria que embasa o desenvolvimento das crianças com 3 anos, que são os meus
alunos, e o que faço na brincadeira. Ou melhor, qual o benefício da brincadeira
e o que realizo.
12-Quais são
seus sentimentos e percepções frente à todo sistema educacional vigente? O que
precisa melhorar e o que tem feito para contribuir?
A Escola precisa
estar relacionada com a vida, fazer sentido, desenvolver habilidades humanas,
potencialidades que todos podem desenvolver independente de condições
financeiras. Caso faça isto teremos uma vida melhor. A educação não vem fazendo
isto. Somos embrião ainda. Na Escola em que estou, vejo que estamos tentando
colocar outros valores e desenvolver ou melhor dando "pinceladas" de
possibilidades da exploração, mudança de olhar, estamos começando um processo
de repensar enquanto grupo, através da coordenadora pedagógica que entrou este
ano. Me empenho naquilo que consigo para contribuir, com estudos e práticas.