quinta-feira, 16 de julho de 2015

O bom professor...

Como parte do nosso cronograma de estudos, realizamos a leitura da obra: “O bom professor e sua prática” da autora Maria Isabel da Cunha e compartilhamos com vocês um levantamento dos pontos fundamentais do livro:

     Para Cunha, os aspectos da formação de professores precisam ser mais definidos e aprofundados, haja vista que a educação de professores deve pensar e estudar ‘o que’ e ‘por que’ acontece na sala de aula. “A sala de aula é o lugar privilegiado onde se realiza o ato pedagógico escolar” (CUNHA, p. 22), é ali que acontecem os conflitos e contradições do contexto social, se expõem as concepções valorativas, ciência, aspectos psicológicos tanto dos alunos quanto dos professores. Portanto, a formação do professor considera e deve abranger o saber específico, o saber pedagógico e o saber político-social.
     Existe uma visão simplista, segundo a qual a função do professor é ensinar, reduzindo isso a algo mecânico e descontextualizado, todavia o professor não ensina o vazio, existe sempre uma situação real e definida. As condições histórico-sociais envolvem a sociedade e nisso a escola se insere (contextualizada), sua relação com o professor é determinante e determinada, uma vez que o professor sofre influências do ambiente escolar, bem como influencia este ambiente com seu modo de ser e agir. Não há neutralidade pedagógica, o ensino é algo socialmente localizado, o professor varia em função dos interesses e valores sociais. Vale frisar que “sem professor não se faz escola” (CUNHA, p. 25). Houve uma época em que o professor era sacerdote: sua tarefa era tida como uma missão, hoje vivenciamos muitos professores sendo “proletários das profissões liberais” (conforme Mills), neste caso o conhecimento é comprado e vendido. Há uma impregnação do positivismo que ignora o condicionamento histórico-social do conhecimento, o professor trata e transfere o conhecimento da maneira como aprendeu e vivenciou. A educação que temos tido procura internalizar o saber mais que conscientizar o homem, sujeito do conhecimento, sendo assim, passiva e sem reflexão crítica, em vez de crítica, projetiva, ativa, articulada, conscientizadora. Ser sujeito do conhecimento é estar ativamente envolvido na interpretação e produção de dados, e não em atitude contemplativa/absorvente.
    “O primeiro pesquisador, na sala de aula, é o professor que investiga seus próprios alunos” (SHOR, p.21, apud CUNHA, 2012, p. 29);
     “O objeto de estudo é o conhecimento que dirige a conduta diária”, pois a vida cotidiana é dotada de valores, conhecimentos do sujeito dentro de uma circunstância, tanto professores quanto alunos, incluem a participação coletiva, interação e comunicação, tem estrutura temporal e espacial. O tempo se encontra na realidade diária de modo contínuo e finito. O professor nasceu num local, circunstância e época que inferem no seu agir e ser, a linguagem é sua principal ferramenta, sendo as palavras, entonações, pausas, expressões importantes. A linguagem estabelece a reciprocidade.
   Nós, seres humanos somos valorativos, assim, bons professores são fruto de julgamentos individuais do avaliador, cada instituição e pessoa tem o “padrão ideal”. Existem, também, expectativas entre professores e alunos sobre seus desempenhos; competência é tida como ideação de um papel socialmente localizado, é fruto das expectativas e práticas aceitas como melhores.



Sobre o bom professor:
  • A escolha do bom professor é dotada da sua prática e compromisso social, relação com alunos, competência em relação ao conteúdo, habilidade para organizar as aulas, afetividade, sua forma de ser e agir;
  • Habilidades dos bons professores: questionar os conteúdos como verdades acabadas, responder às dúvidas dos alunos, prazer em aprender, formas dialógicas de interação;
  • Bons professores raramente demonstram posicionamento político segundo a pesquisa, os alunos sequer mencionam tal quesito. É o reflexo da não absorção do compromisso político de cada indivíduo com a sociedade;
  • Formas de ser dos bons professores: senso de humor, o gosto pelo ensinar,
  • Idade cronológica não é requisito do bom professor;
  • Em dados: “A maior parte dos bons professores pertence ao sexo masculino (aproximadamente 80%), distribuindo-se entre 26 e 50 anos. A incidência maior (mais ou menos 50%) localiza-se entre 35 e 45 anos” p. 69. Vale ressaltar que a pesquisa foi realizada com 21 professores do 2º e 3º graus em Pelotas/RS. Destes 21 professores, 12 possuem pós-graduação (08 em nível de especialização, 02 com mestrado, 01 pós-doutorado), os outros possuem apenas a graduação;
  • Bons professores ainda apresentam pouca participação em congressos, conferências, seminários, alegando como motivo a questão financeira;
  • História de vida dos bons professores: influências da família na formação, condições econômicas familiares, valores, opção pelo magistério para alcançar o mestrado, gostam do que fazem, reconhecem as dificuldades (preguiça, cansaço, baixa remuneração), se motivam na relação com os alunos;
  • Influências principais dos bons professores: suas experiências enquanto alunos, seus professores (há certa reprodução no comportamento docente), experiências profissionais (trajetória, formação), prática social (exercício da cidadania), outros colegas professores, convivências cotidianas com pesquisadores, familiares, juristas;
  • Visão social dos bons professores: a escola possui valor social, desvalorização da educação, descaso governamental, escola está parada no tempo (descontextualizada, simplista), descomprometimento, os alunos não sabem pensar (não são preparados para), separação entre teoria e prática, escola oferece pouco para alunos trabalhadores, reprodução social;
  • “[...] Nem sempre o professor é consciente de sua não neutralidade. Às vezes até rejeita a ideia de que exerce m ato político no fazer pedagógico. Não há dúvida de que, na verbalização que fazem da sua história e da sua prática, estes aspetos aparecem. O processo de amadurecimento certamente irá lhe mostrar isto um dia” p. 91;
  • A prática pedagógica dos bons professores: nenhum verbalizou não-diretividade, se percebem como articuladores da aprendizagem, não são paternalistas, nem adeptos do “laissez-faire”, sentem dificuldades em fazer os alunos agirem, valorizam suas áreas do conhecimento, se esforçam para unir teoria e prática no mesmo fenômeno, atentos para que o discurso não seja repetitivo e incoerente com a ação, utilizam a problematização dos conteúdos, estimulam a intelectualidade dos alunos, resistem a escrever planos de aula (reduzem-no a anotações), valorizam a revisão de seu fazer na sala de aula, procuram partir do concreto para o abstrato, da prática para a teoria, têm claro e coletivo os objetivos de ensino, utilizam autoavaliação, provas com consulta e estudos de caso;
  • “[...] quando o professor compreende a importância social do seu trabalho, começa a dar uma dimensão transformadora à sua ação e acaba por perceber o político a sustentar o pedagógico” p. 111;
  • Formação do professor: gosta de ensinar, domina o conteúdo, estudioso, honestidade no trato com o conhecimento dos alunos;
  • Procedimentos dos bons professores: aulas expositivas, aulas em laboratórios ou práticas eram antecedidas por instruções, repetem comportamentos que julgam positivos, buscam criar um ambiente agradável, localizam historicamente o conteúdo, estabelecem relações com outras áreas do saber, incentivam a participação, estabelecem diálogos, perguntas exploratórias, aproveitam as respostas e conhecimentos dos alunos, variação de estímulos e recursos, segurança, reconhecem quando não sabem, opinam em certas situações.

“O senhor... Mire e veja que o mais importante e bonito do mundo é isto, que as pessoas não estão sempre iguais, não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam – verdade maior. E o que a vida me ensinou. Isto me alegra, montão.”
Guimarães Rosa.


CUNHA, M. I. da; O bom professor e sua prática. 24 ed. Campinas/SP: Papirus, 2012.

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