“Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como
certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei
sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que
não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me
incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que minha
passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que meu
"destino" não é um dado mas algo que precisa ser feito e de cuja
responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em
que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de
possibilidades e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização
do futuro e recuse sua inexorabilidade.
Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser
condicionado, mas consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele.
Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A
diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que
histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto
de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha
presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças
sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo geneticamente e
o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito a ver comigo mesmo.
Seria irônico se a consciência de minha presença no mundo não implicasse já o
reconhecimento da impossibilidade de minha ausência na construção da própria
presença. [...] Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta
mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas
objeto, mas sujeito também há história.
Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições
materiais, econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas em que nos
achamos geram quase sempre barreias de difícil superação para o cumprimento de
nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se
eternizam (FREIRE, 1997, p.52-53).”
Parabéns ao grupo pelo trecho apresentado. Sem dúvida, Freire ressalta os valores que devem ser preservados pela educação.
ResponderExcluirUm abraço!